Nutrição

RED-S: A Baixa Disponibilidade Energética Que Trava o Corredor

A deficiência energética relativa (RED‑S) acontece quando a ingestão calórica diária não cobre as necessidades energéticas do corpo, levando a prejuízos no desempenho e na saúde do corredor.…

Rui Cardoso1 de setembro de 20265 min de leituraNutrição0 visualizações

A deficiência energética relativa (RED‑S) acontece quando a ingestão calórica diária não cobre as necessidades energéticas do corpo, levando a prejuízos no desempenho e na saúde do corredor.
Para corredores de elite, a falta de energia não só reduz a capacidade de treino, mas também compromete a recuperação, o equilíbrio hormonal e a integridade óssea, criando um ciclo de queda de rendimento que pode ser difícil de quebrar.

Em contextos de corrida de longa distância, a energia provém principalmente de carboidratos, mas o déficit pode surgir por várias razões: dietas excessivamente restritivas, volume de treino elevado, ou desequilíbrios no timing das refeições. A RED‑S não se limita a atletas com baixo peso; mesmo corredores bem alimentados podem experimentar sintomas se a energia não for distribuída adequadamente ao longo do dia.

Base Científica

A definição clínica de RED‑S, segundo a consensus statement do IOC (Mountjoy et al., 2023), inclui três pilares: (1) disponibilidade energética relativa insuficiente, (2) disfunções fisiológicas (por exemplo, distúrbios hormonais, osteoporose) e (3) redução do desempenho. O componente energético é calculado como a diferença entre energia ingerida (EI) e energia gasta (EE). Quando EI – EE < 0 kcal d⁻¹, o atleta entra em estado de déficit.

O déficit pode ser medido de forma indireta através de calorimetria indireta ou estimativas de gasto energético basal (EEB) combinadas com o gasto de treino. Um corredor de 70 kg que corre 80 km/semana consome, em média, 4 kcal kg⁻¹ d⁻¹ (≈ 280 kcal d⁻¹) e gasta cerca de 5 kcal kg⁻¹ d⁻¹ (≈ 350 kcal d⁻¹); o déficit seria de 70 kcal d⁻¹, já suficiente para comprometer a recuperação muscular e a função hormonal.

Os efeitos fisiológicos incluem a diminuição da síntese de proteínas musculares, redução da densidade mineral óssea e alterações no eixo hipotalâmico‑pituitário‑gônadal (HPO), levando a irregularidades menstruais em mulheres e a diminuição da testosterona em homens. A literatura demonstra que mesmo déficits moderados (≈ 30 kcal d⁻¹) podem reduzir a capacidade de trabalho em 2‑5 % nas provas de 10 km a 42 km (Thomas et al., 2016).

Aplicação Prática

Avaliação Inicial

  1. Registo de Alimentação: 3‑dias de diário alimentar (incluindo snacks), anotando horários, tipos de alimentos e quantidades.
  2. Cálculo de EI: Utilizar aplicativos de rastreamento calórico com base em tabelas de composição de alimentos.
  3. Estimativa de EE: Calcular o gasto basal (BMR) com a fórmula de Harris‑Benedict e somar o gasto de treino (kcal kg⁻¹ km × distância).
  4. Comparação: EI – EE; se o resultado for negativo, o atleta está em déficit.

Estratégias de Reforço Energético

  • Carboidratos: 6‑10 g kg⁻¹ d⁻¹, distribuídos em 3‑4 refeições principais e 2‑3 snacks. Exemplo: 70 kg → 420‑700 kcal de carboidratos/dia.
  • Proteína: 1,2‑1,6 g kg⁻¹ d⁻¹ para preservar a massa muscular.
  • Gordura: 0,8‑1,2 g kg⁻¹ d⁻¹, mantendo a ingestão total calórica sem exceder 30 % das calorias.
  • Timing: Ingerir 30 min antes de cada sessão de treino uma refeição rica em carboidratos (ex.: 1 tigela de aveia + banana + 2 colheres de chá de mel).
  • Reidratação: 1,5 L de água por cada 10 km corridos; incluir eletrólitos se a perda de suor for > 0,5 % do peso corporal.

Protocolos de Treino

  • Volume Moderado: Ajustar a quilometragem semanal para não exceder 10 % acima da média de 3‑4 semanas.
  • Intensidade Controlada: Manter a frequência cardíaca alvo (HR = 70‑80 % FCmáx) em 80 % das sessões.
  • Recuperação: Incluir 1‑2 dias de descanso ativo (caminhada leve ou natação) para reduzir a carga metabólica sem comprometer a adaptação.

Monitorização Contínua

  • Pesagem Semanal: Evitar flutuações > 2 % do peso corporal.
  • Testes de Força: 1RM de agachamento e levantamento terra, monitorando a tendência de queda.
  • Análise Hormonal: Se houver sintomas (irregularidades menstruais, fadiga excessiva), solicitar dosagem de cortisol, testosterona e LH/FSH.

Erros Comuns

| Erro | Impacto | Solução | |------|---------|---------| | Subestimar a necessidade de carboidratos pós‑treino | Diminuição da reposição de glicogênio | Consumir 0,5‑0,8 g kg⁻¹ em 30 min pós‑treino | | Ignorar sinais de fadiga crónica | Aumento do risco de lesões | Introduzir dias de descanso quando a dor persiste > 48 h | | Substituir calorias por suplementos de baixa densidade | Deficiência calórica | Priorizar alimentos densos (frutos secos, abacate, azeite) | | Focar apenas em proteínas | Perda de massa muscular | Equilibrar macro‑nutrientes conforme protocolo acima |

Protocolo/Conclusão

A prevenção da RED‑S exige um equilíbrio preciso entre ingestão calórica, distribuição de macronutrientes e carga de treino. Um protocolo de 4‑semanas pode ser estruturado da seguinte forma:

  1. Semana 1–2: Aumentar EI em 200‑300 kcal/dia, mantendo a distribuição 55 % carboidratos, 25 % proteína, 20 % gordura.
  2. Semana 3: Introduzir treino intervalado de 5 × 3 min a 90 % FCmáx, mantendo a ingestão de carboidratos 1 h antes e 30 min depois.
  3. Semana 4: Avaliar performance (tempo de 10 km) e biomarcadores (cortisol). Se a performance melhorar > 2 %, manter protocolo; caso contrário, reduzir a carga em 10 % e aumentar EI em 150 kcal/dia.

Ao seguir estes passos, o corredor reduz o risco de RED‑S, melhora a recuperação e sustém o rendimento a longo prazo. A chave é a constância: manter a ingestão calórica alinhada ao gasto energético, monitorizar sinais de fadiga e ajustar o plano de treino conforme os dados.

Referências Científicas

Mountjoy, M., Ackerman, K. E., Bailey, D. M., et al. (2023). 2023 International Olympic Committee's (IOC) consensus statement on Relative

Perguntas Frequentes

Qual é o menor déficit calórico que já pode afetar o desempenho de um corredor?

Mesmo um déficit de 30 kcal d⁻¹ pode reduzir a capacidade de trabalho em 2‑5 % nas provas de longa distância.

Como saber se a minha ingestão de carboidratos é suficiente?

Se sentir fadiga antes do fim do treino, ou se o tempo de 10 km não melhorar depois de 2 semanas, é provável que a reposição de glicogênio seja insuficiente; aumente a ingestão para 6‑10 g kg⁻¹ d⁻¹.

É seguro substituir calorias por suplementos de proteína?

Não. Os suplementos de proteína não fornecem energia; é essencial garantir a ingestão calórica total através de alimentos ricos em carboidratos e gorduras.

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