Para correr a meia maratona sub 1h45 tens de manter uma média de 4:59/km durante 21,1 km — na prática, 4:57–4:58/km para teres margem. Este plano de 12 semanas, com 4 treinos semanais e 35 a 55 km, foi pensado para quem já corre cerca de 47–48 minutos nos 10 km e quer transformar essa velocidade em resistência.
Estás pronto para a sub 1h45?
O primeiro passo é ver se o objetivo é realista. As fórmulas de equivalência entre distâncias, como a de Riegel (1981), estimam que uma meia em 1h45 corresponde a cerca de 47:30 nos 10 km e 22:50 nos 5 km. Estas fórmulas são aproximações — quem tem pouca base aeróbia costuma ficar aquém da previsão na meia —, mas são um bom filtro:
- 10 km em 47–48 min ou melhor: objetivo realista com este plano.
- 10 km entre 48 e 50 min: possível, mas exige um ciclo bem cumprido e um dia de prova favorável.
- 10 km acima de 50 min: aponta primeiro para 1h50 e guarda a sub 1h45 para o ciclo seguinte. O plano de meia maratona sub-2h é um bom ponto de partida.
Outro requisito: deves conseguir correr pelo menos 30 km por semana, há várias semanas, sem dores, e já ter feito corridas de 12–14 km.
Os teus ritmos de treino
O rendimento na meia maratona depende sobretudo de três fatores: VO₂max, limiar de lactato e economia de corrida (Midgley et al., 2007). Cada tipo de treino do plano trabalha um deles. Os ritmos abaixo partem de um objetivo de 1h44:50 (4:58/km).
| Tipo de treino | Ritmo | Para que serve | |---|---|---| | Fácil / recuperação | 5:50–6:30/km | Base aeróbia, recuperação | | Corrida longa | 5:45–6:20/km | Resistência, durabilidade | | Ritmo de meia (RM) | 4:55–5:00/km | Especificidade, confiança no ritmo | | Limiar | 4:45–4:50/km | Elevar o limiar de lactato | | Intervalos VO₂max | 4:25–4:35/km | Potência aeróbia |
Se ainda não sabes bem o que é treinar no limiar, lê o nosso artigo sobre limiar de lactato. Em termos de sensação, o limiar é «confortavelmente difícil»: consegues dizer frases curtas, mas não conversar.
Como está organizado o plano
A distribuição da intensidade
A maior parte do volume é fácil. Nos atletas de endurance bem-sucedidos, cerca de 80% das sessões são de baixa intensidade e o restante de intensidade elevada (Seiler, 2010). Num estudo de 9 semanas com atletas treinados, o modelo polarizado — muito treino fácil e uma fração pequena de treino muito intenso — produziu melhorias maiores no VO₂peak e no tempo até à exaustão do que modelos centrados no limiar, no volume ou só em alta intensidade (Stöggl & Sperlich, 2014).
Para um amador com 4 treinos, isto traduz-se em: duas sessões com ritmo, duas sessões fáceis. Nunca transformes as corridas fáceis em treinos de ritmo.
A semana-tipo
- Terça — qualidade: intervalos VO₂max ou limiar (alternados).
- Quinta — fácil: corrida contínua a ritmo de conversa.
- Sábado — fácil ou ritmo de meia: a partir da semana 3, inclui blocos a RM.
- Domingo — corrida longa: sempre fácil; nas semanas finais termina com quilómetros a RM.
Inclui aquecimento de 10–15 min a trote e 4 progressivos antes das sessões de terça, e 5–10 min de retorno à calma. Os quilómetros indicados incluem aquecimento e retorno à calma. Duas sessões curtas de força por semana (20–30 min) completam o plano; podem coincidir com os dias fáceis.
O plano de 12 semanas
| Sem. | Terça (qualidade) | Quinta | Sábado | Domingo (longo) | Total | |---|---|---|---|---|---| | 1 | 6×800 m a 4:30/km, rec. 2 min trote | 8 km fácil | 7 km fácil + 4 progressivos | 14 km fácil | ~38 km | | 2 | 3×10 min limiar, rec. 2 min | 8 km fácil | 8 km fácil | 15 km fácil | ~41 km | | 3 | 5×1000 m a 4:30/km, rec. 2:30 | 9 km fácil | 8 km com 3 km a RM | 16 km fácil | ~44 km | | 4 | Fartlek: 6×1 min rápido / 1 min trote | 7 km fácil | 6 km fácil | 12 km fácil | ~32 km | | 5 | 2×15 min limiar, rec. 3 min | 9 km fácil | 9 km com 4 km a RM | 17 km fácil | ~47 km | | 6 | 6×1000 m a 4:28/km, rec. 2:30 | 9 km fácil | 9 km fácil | 18 km, últimos 3 km a RM | ~49 km | | 7 | 3×12 min limiar, rec. 2 min | 10 km fácil | 10 km com 5 km a RM | 19 km fácil | ~52 km | | 8 | Teste: prova de 10 km ou 5 km | 7 km fácil | 6 km fácil | 13 km fácil | ~36 km | | 9 | 4×1600 m a 4:32/km, rec. 3 min | 10 km fácil | 10 km com 6 km a RM | 20 km fácil | ~54 km | | 10 | 2×15 min limiar, rec. 3 min | 10 km fácil | 9 km fácil | 18 km, últimos 6 km a RM | ~51 km | | 11 | 4×1000 m a 4:35/km, rec. 2 min | 8 km fácil | 7 km com 3 km a RM | 14 km fácil | ~38 km | | 12 | 6 km com 3×1 km a RM | 5 km fácil + 4 progressivos | 3–4 km trote | PROVA | — |
As semanas de recuperação (4 e 8)
A cada três semanas de carga crescente segue-se uma semana com cerca de 30% menos volume. É aí que o corpo assimila o trabalho. Na semana 8, usa uma prova de 10 km (ou um 5 km) como teste: se correres 10 km em 47:30 ou melhor, mantém o objetivo; se ficares acima dos 49 minutos, ajusta o ritmo-alvo para 5:05–5:10/km.
O taper (semanas 11 e 12)
Uma meta-análise sobre o taper concluiu que o melhor efeito surge com cerca de duas semanas de redução progressiva do volume, na ordem dos 41–60%, mantendo a intensidade e a frequência dos treinos (Bosquet et al., 2007). Por isso, nas duas últimas semanas cortas quilómetros, mas não tiras o ritmo: continuas a tocar no RM e em velocidades mais rápidas, só em doses menores. Para perceber melhor a lógica, vê o nosso guia de taper.
Os treinos-chave explicados
Limiar (terças alternadas)
Blocos de 10 a 15 minutos a 4:45–4:50/km. O erro mais comum é correr mais depressa do que o indicado: o objetivo é acumular tempo perto do limiar, não fazer uma prova. Se no último bloco não consegues manter o ritmo, começaste rápido demais. O tempo run é uma variante contínua que podes usar se preferires.
Intervalos VO₂max
Repetições de 800 a 1600 m a 4:25–4:35/km, próximo do teu ritmo de 5 km. Mantém todas as repetições ao mesmo ritmo — a última deve sair tão bem como a primeira.
Blocos a ritmo de meia
São os treinos mais específicos do plano. Ensinam-te a reconhecer os 4:58/km sem olhar para o relógio a cada 200 metros. Faz pelo menos um deles no circuito ou num percurso parecido com o da prova.
A corrida longa
Progride de 14 para 20 km. Corre-a fácil: a meia maratona é uma prova aeróbia e a longa serve para construir a resistência que te permite manter o ritmo nos últimos 5 km. Só nas semanas 6 e 10 terminas com quilómetros a RM.
Estratégia para o dia da prova
- Ritmo: 5:00–5:02/km nos primeiros 3 km, depois 4:57–4:58/km. Sair 10–15 s/km mais rápido no início é o erro que mais tempo custa no fim.
- Tangentes: o GPS mede quase sempre a mais. Corre pelas linhas mais curtas e confia nos marcadores de quilómetro.
- Hidratos de carbono: numa prova de 1h45, um gel ou equivalente por volta dos 40–50 min e outro aos 70–80 min é uma estratégia comum; testa-a antes nas corridas longas.
- Aos 15 km: se estiveres no ritmo e te sentires bem, podes acelerar ligeiramente. Se não, protege a média.
Erros que estragam a sub 1h45
- Correr os treinos fáceis depressa demais. Chegas cansado às sessões importantes e não as cumpres.
- Saltar as semanas de recuperação. São parte do plano, não um luxo.
- Mudar o ritmo-alvo sem dados. Usa o teste da semana 8 para decidir.
- Ignorar dores. Uma dor que piora durante a corrida ou que altera a tua passada é motivo para parar e consultar um fisioterapeuta.
Referências Científicas
- Bosquet, L., Montpetit, J., Arvisais, D., & Mujika, I. (2007). Effects of tapering on performance: A meta-analysis. Medicine & Science in Sports & Exercise, 39(8), 1358–1365. https://doi.org/10.1249/mss.0b013e31806010e0
- Midgley, A. W., McNaughton, L. R., & Jones, A. M. (2007). Training to enhance the physiological determinants of long-distance running performance: Can valid recommendations be given to runners and coaches based on current scientific knowledge? Sports Medicine, 37(10), 857–880. https://doi.org/10.2165/00007256-200737100-00003
- Riegel, P. S. (1981). Athletic records and human endurance. American Scientist, 69(3), 285–290.
- Seiler, S. (2010). What is best practice for training intensity and duration distribution in endurance athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance, 5(3), 276–291. https://doi.org/10.1123/ijspp.5.3.276
- Stöggl, T., & Sperlich, B. (2014). Polarized training has greater impact on key endurance variables than threshold, high intensity, or high volume training. Frontiers in Physiology, 5, 33. https://doi.org/10.3389/fphys.2014.00033
Perguntas Frequentes
A que ritmo tenho de correr para fazer a meia maratona sub 1h45?
1h45 nos 21,1 km corresponde a 4:59/km. Aponta para 4:57–4:58/km para teres uma pequena margem, porque o GPS costuma medir um pouco mais do que a distância oficial.
Que marca nos 10 km preciso para tentar 1h45 na meia?
Pelas tabelas de equivalência habituais, uma meia em 1h45 corresponde a cerca de 47:30 nos 10 km. Se o teu recorde estiver acima dos 49–50 minutos, o objetivo é provavelmente demasiado ambicioso para este ciclo.
Quatro treinos por semana chegam para a sub 1h45?
Para a maioria dos corredores com essa base, sim: duas sessões com ritmo, uma corrida fácil e uma corrida longa, com 35 a 55 km semanais. Um quinto treino fácil ajuda se o teu corpo já o tolerar.
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