Treino

Meia Maratona Sub-1h45: Plano Completo de 12 Semanas

Para correr a meia maratona sub 1h45 precisas de manter 4:58/km. Vê os requisitos, os ritmos de treino e o plano completo de 12 semanas com 4 treinos.

Rui Cardoso24 de outubro de 20267 min de leituraTreino0 visualizações

Para correr a meia maratona sub 1h45 tens de manter uma média de 4:59/km durante 21,1 km — na prática, 4:57–4:58/km para teres margem. Este plano de 12 semanas, com 4 treinos semanais e 35 a 55 km, foi pensado para quem já corre cerca de 47–48 minutos nos 10 km e quer transformar essa velocidade em resistência.

Estás pronto para a sub 1h45?

O primeiro passo é ver se o objetivo é realista. As fórmulas de equivalência entre distâncias, como a de Riegel (1981), estimam que uma meia em 1h45 corresponde a cerca de 47:30 nos 10 km e 22:50 nos 5 km. Estas fórmulas são aproximações — quem tem pouca base aeróbia costuma ficar aquém da previsão na meia —, mas são um bom filtro:

  • 10 km em 47–48 min ou melhor: objetivo realista com este plano.
  • 10 km entre 48 e 50 min: possível, mas exige um ciclo bem cumprido e um dia de prova favorável.
  • 10 km acima de 50 min: aponta primeiro para 1h50 e guarda a sub 1h45 para o ciclo seguinte. O plano de meia maratona sub-2h é um bom ponto de partida.

Outro requisito: deves conseguir correr pelo menos 30 km por semana, há várias semanas, sem dores, e já ter feito corridas de 12–14 km.

Os teus ritmos de treino

O rendimento na meia maratona depende sobretudo de três fatores: VO₂max, limiar de lactato e economia de corrida (Midgley et al., 2007). Cada tipo de treino do plano trabalha um deles. Os ritmos abaixo partem de um objetivo de 1h44:50 (4:58/km).

| Tipo de treino | Ritmo | Para que serve | |---|---|---| | Fácil / recuperação | 5:50–6:30/km | Base aeróbia, recuperação | | Corrida longa | 5:45–6:20/km | Resistência, durabilidade | | Ritmo de meia (RM) | 4:55–5:00/km | Especificidade, confiança no ritmo | | Limiar | 4:45–4:50/km | Elevar o limiar de lactato | | Intervalos VO₂max | 4:25–4:35/km | Potência aeróbia |

Se ainda não sabes bem o que é treinar no limiar, lê o nosso artigo sobre limiar de lactato. Em termos de sensação, o limiar é «confortavelmente difícil»: consegues dizer frases curtas, mas não conversar.

Como está organizado o plano

A distribuição da intensidade

A maior parte do volume é fácil. Nos atletas de endurance bem-sucedidos, cerca de 80% das sessões são de baixa intensidade e o restante de intensidade elevada (Seiler, 2010). Num estudo de 9 semanas com atletas treinados, o modelo polarizado — muito treino fácil e uma fração pequena de treino muito intenso — produziu melhorias maiores no VO₂peak e no tempo até à exaustão do que modelos centrados no limiar, no volume ou só em alta intensidade (Stöggl & Sperlich, 2014).

Para um amador com 4 treinos, isto traduz-se em: duas sessões com ritmo, duas sessões fáceis. Nunca transformes as corridas fáceis em treinos de ritmo.

A semana-tipo

  • Terça — qualidade: intervalos VO₂max ou limiar (alternados).
  • Quinta — fácil: corrida contínua a ritmo de conversa.
  • Sábado — fácil ou ritmo de meia: a partir da semana 3, inclui blocos a RM.
  • Domingo — corrida longa: sempre fácil; nas semanas finais termina com quilómetros a RM.

Inclui aquecimento de 10–15 min a trote e 4 progressivos antes das sessões de terça, e 5–10 min de retorno à calma. Os quilómetros indicados incluem aquecimento e retorno à calma. Duas sessões curtas de força por semana (20–30 min) completam o plano; podem coincidir com os dias fáceis.

O plano de 12 semanas

| Sem. | Terça (qualidade) | Quinta | Sábado | Domingo (longo) | Total | |---|---|---|---|---|---| | 1 | 6×800 m a 4:30/km, rec. 2 min trote | 8 km fácil | 7 km fácil + 4 progressivos | 14 km fácil | ~38 km | | 2 | 3×10 min limiar, rec. 2 min | 8 km fácil | 8 km fácil | 15 km fácil | ~41 km | | 3 | 5×1000 m a 4:30/km, rec. 2:30 | 9 km fácil | 8 km com 3 km a RM | 16 km fácil | ~44 km | | 4 | Fartlek: 6×1 min rápido / 1 min trote | 7 km fácil | 6 km fácil | 12 km fácil | ~32 km | | 5 | 2×15 min limiar, rec. 3 min | 9 km fácil | 9 km com 4 km a RM | 17 km fácil | ~47 km | | 6 | 6×1000 m a 4:28/km, rec. 2:30 | 9 km fácil | 9 km fácil | 18 km, últimos 3 km a RM | ~49 km | | 7 | 3×12 min limiar, rec. 2 min | 10 km fácil | 10 km com 5 km a RM | 19 km fácil | ~52 km | | 8 | Teste: prova de 10 km ou 5 km | 7 km fácil | 6 km fácil | 13 km fácil | ~36 km | | 9 | 4×1600 m a 4:32/km, rec. 3 min | 10 km fácil | 10 km com 6 km a RM | 20 km fácil | ~54 km | | 10 | 2×15 min limiar, rec. 3 min | 10 km fácil | 9 km fácil | 18 km, últimos 6 km a RM | ~51 km | | 11 | 4×1000 m a 4:35/km, rec. 2 min | 8 km fácil | 7 km com 3 km a RM | 14 km fácil | ~38 km | | 12 | 6 km com 3×1 km a RM | 5 km fácil + 4 progressivos | 3–4 km trote | PROVA | — |

As semanas de recuperação (4 e 8)

A cada três semanas de carga crescente segue-se uma semana com cerca de 30% menos volume. É aí que o corpo assimila o trabalho. Na semana 8, usa uma prova de 10 km (ou um 5 km) como teste: se correres 10 km em 47:30 ou melhor, mantém o objetivo; se ficares acima dos 49 minutos, ajusta o ritmo-alvo para 5:05–5:10/km.

O taper (semanas 11 e 12)

Uma meta-análise sobre o taper concluiu que o melhor efeito surge com cerca de duas semanas de redução progressiva do volume, na ordem dos 41–60%, mantendo a intensidade e a frequência dos treinos (Bosquet et al., 2007). Por isso, nas duas últimas semanas cortas quilómetros, mas não tiras o ritmo: continuas a tocar no RM e em velocidades mais rápidas, só em doses menores. Para perceber melhor a lógica, vê o nosso guia de taper.

Os treinos-chave explicados

Limiar (terças alternadas)

Blocos de 10 a 15 minutos a 4:45–4:50/km. O erro mais comum é correr mais depressa do que o indicado: o objetivo é acumular tempo perto do limiar, não fazer uma prova. Se no último bloco não consegues manter o ritmo, começaste rápido demais. O tempo run é uma variante contínua que podes usar se preferires.

Intervalos VO₂max

Repetições de 800 a 1600 m a 4:25–4:35/km, próximo do teu ritmo de 5 km. Mantém todas as repetições ao mesmo ritmo — a última deve sair tão bem como a primeira.

Blocos a ritmo de meia

São os treinos mais específicos do plano. Ensinam-te a reconhecer os 4:58/km sem olhar para o relógio a cada 200 metros. Faz pelo menos um deles no circuito ou num percurso parecido com o da prova.

A corrida longa

Progride de 14 para 20 km. Corre-a fácil: a meia maratona é uma prova aeróbia e a longa serve para construir a resistência que te permite manter o ritmo nos últimos 5 km. Só nas semanas 6 e 10 terminas com quilómetros a RM.

Estratégia para o dia da prova

  • Ritmo: 5:00–5:02/km nos primeiros 3 km, depois 4:57–4:58/km. Sair 10–15 s/km mais rápido no início é o erro que mais tempo custa no fim.
  • Tangentes: o GPS mede quase sempre a mais. Corre pelas linhas mais curtas e confia nos marcadores de quilómetro.
  • Hidratos de carbono: numa prova de 1h45, um gel ou equivalente por volta dos 40–50 min e outro aos 70–80 min é uma estratégia comum; testa-a antes nas corridas longas.
  • Aos 15 km: se estiveres no ritmo e te sentires bem, podes acelerar ligeiramente. Se não, protege a média.

Erros que estragam a sub 1h45

  1. Correr os treinos fáceis depressa demais. Chegas cansado às sessões importantes e não as cumpres.
  2. Saltar as semanas de recuperação. São parte do plano, não um luxo.
  3. Mudar o ritmo-alvo sem dados. Usa o teste da semana 8 para decidir.
  4. Ignorar dores. Uma dor que piora durante a corrida ou que altera a tua passada é motivo para parar e consultar um fisioterapeuta.

Referências Científicas

  1. Bosquet, L., Montpetit, J., Arvisais, D., & Mujika, I. (2007). Effects of tapering on performance: A meta-analysis. Medicine & Science in Sports & Exercise, 39(8), 1358–1365. https://doi.org/10.1249/mss.0b013e31806010e0
  2. Midgley, A. W., McNaughton, L. R., & Jones, A. M. (2007). Training to enhance the physiological determinants of long-distance running performance: Can valid recommendations be given to runners and coaches based on current scientific knowledge? Sports Medicine, 37(10), 857–880. https://doi.org/10.2165/00007256-200737100-00003
  3. Riegel, P. S. (1981). Athletic records and human endurance. American Scientist, 69(3), 285–290.
  4. Seiler, S. (2010). What is best practice for training intensity and duration distribution in endurance athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance, 5(3), 276–291. https://doi.org/10.1123/ijspp.5.3.276
  5. Stöggl, T., & Sperlich, B. (2014). Polarized training has greater impact on key endurance variables than threshold, high intensity, or high volume training. Frontiers in Physiology, 5, 33. https://doi.org/10.3389/fphys.2014.00033

Perguntas Frequentes

A que ritmo tenho de correr para fazer a meia maratona sub 1h45?

1h45 nos 21,1 km corresponde a 4:59/km. Aponta para 4:57–4:58/km para teres uma pequena margem, porque o GPS costuma medir um pouco mais do que a distância oficial.

Que marca nos 10 km preciso para tentar 1h45 na meia?

Pelas tabelas de equivalência habituais, uma meia em 1h45 corresponde a cerca de 47:30 nos 10 km. Se o teu recorde estiver acima dos 49–50 minutos, o objetivo é provavelmente demasiado ambicioso para este ciclo.

Quatro treinos por semana chegam para a sub 1h45?

Para a maioria dos corredores com essa base, sim: duas sessões com ritmo, uma corrida fácil e uma corrida longa, com 35 a 55 km semanais. Um quinto treino fácil ajuda se o teu corpo já o tolerar.

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