Introdução
Durante décadas, a vitamina D foi considerada essencialmente um nutriente para a saúde óssea — o composto que previne o raquitismo e regula o metabolismo do cálcio. Mas nos últimos 15 anos, a investigação revelou que os receptores de vitamina D estão presentes em quase todos os tecidos do organismo, incluindo o músculo esquelético, o sistema imunitário e o coração. Para corredores, isto tem implicações diretas e frequentemente subestimadas.
Estudos publicados no último decénio mostram que prevalências de deficiência de vitamina D em atletas de endurance variam entre 30% e 70%, dependendo da latitude, da estação do ano e da quantidade de treino realizado em ambiente fechado ou de manhã cedo (com pouca exposição solar). Portugal, apesar da sua localização geográfica privilegiada, não é exceção — especialmente em corredores que treinam antes do amanhecer ou que vivem em zonas urbanas com elevada poluição atmosférica.
Base Científica: O Papel Multifacetado da Vitamina D
A vitamina D não é tecnicamente uma vitamina no sentido clássico — é um prohormona. É produzida na pele por ação dos raios UVB a partir do 7-dehidrocolesterol, entra em circulação, é metabolizada no fígado em 25-hidroxivitamina D (25(OH)D — a forma medida nos exames de sangue) e depois ativada nos rins em 1,25-diidroxivitamina D (calcitriol), a forma biologicamente ativa.
Os valores de referência são relativamente claros, mas há debate sobre os limiares ótimos para atletas:
- Deficiência grave: < 20 nmol/L (< 8 ng/mL)
- Deficiência moderada: 20-50 nmol/L (8-20 ng/mL)
- Insuficiência: 50-75 nmol/L (20-30 ng/mL)
- Suficiência: > 75 nmol/L (> 30 ng/mL)
- Ótimo para atletas (sugerido): 100-150 nmol/L (40-60 ng/mL)
No músculo esquelético, a vitamina D liga-se ao receptor nuclear VDR (Vitamin D Receptor) e regula a expressão de genes envolvidos na síntese proteica, na função mitocondrial e no metabolismo do cálcio intracelular. Estudos de biópsia muscular em indivíduos com deficiência de vitamina D revelam atrofia das fibras musculares tipo II (de contração rápida) — exatamente as fibras mais importantes para a economia de corrida, a potência e o desempenho em terreno irregular.
Larson-Meyer & Willis (2010) fizeram uma revisão abrangente sobre vitamina D em atletas e concluíram que a deficiência está associada a menor força muscular, maior tempo de recuperação, maior incidência de fraturas de fadiga e maior susceptibilidade a infecções respiratórias do trato superior — uma das principais causas de interrupção do treino em corredores de fundo.
Cannell et al. (2009) publicaram uma análise histórica intrigante que mostrou correlações positivas entre os meses de verão (maior exposição solar, maiores níveis de vitamina D) e os recordes mundiais em atletismo — uma correlação obviamente multifactorial, mas que levantou hipóteses sobre o papel da vitamina D na performance neuromuscular de pico.
Consequências Práticas da Deficiência em Corredores
Fraturas de fadiga. Esta é talvez a consequência mais documentada e mais temida. A deficiência de vitamina D compromete a mineralização óssea mesmo quando a dieta é rica em cálcio, porque a vitamina D é essencial para a absorção intestinal do cálcio. Corredores com deficiência têm risco significativamente aumentado de fraturas de fadiga na tíbia, no metatarso e no fémur — lesões que implicam tipicamente 6-8 semanas de imobilização.
Recuperação mais lenta. O papel da vitamina D na função mitocondrial e na síntese proteica muscular significa que a sua deficiência prejudica a taxa de recuperação entre sessões de treino. Corredores deficientes podem sentir fadiga muscular persistente, queda de performance sem causa aparente e maior DOMS após treinos longos.
Imunossupressão. A vitamina D tem um papel central na função imunitária inata e adaptativa. Corredores de alto volume são já cronicamente imunossuprimidos durante picos de treino (fenómeno conhecido como "open window hypothesis"), e a deficiência de vitamina D agrava este estado. O resultado prático: mais infecções, mais dias de treino perdidos, mais interferências no planeamento.
Função neuromuscular comprometida. Estudos com atletas que suplementaram vitamina D mostram melhorias no tempo de reação, na força de quadríceps e na potência em salto vertical — indicadores de função neuromuscular que têm relevância direta para a corrida, especialmente em trail.
Erros Comuns
Assumir que "viver num país com sol" protege contra a deficiência. Portugal tem clima mediterrânico, mas um corredor que treina às 6h da manhã antes do trabalho, com roupa que cobre o corpo, e passa a maioria do dia em escritório, tem exposição solar efetiva mínima. Os raios UVB necessários para a síntese de vitamina D só estão disponíveis quando o índice UV é ≥ 3 — em Portugal, isso acontece tipicamente entre as 10h e as 16h no verão, e em janelas muito curtas no inverno.
Só suplementar no inverno. A vitamina D tem uma semi-vida relativamente longa no organismo (2-3 semanas para a 25(OH)D sérica), mas os depósitos esgotam-se rapidamente em situações de deficiência. Muitos atletas têm deficiência mesmo no verão se os seus hábitos de vida implicam pouca exposição solar.
Tomar doses muito baixas sem monitorização. Os suplementos de venda livre em Portugal frequentemente contêm 400-800 UI/dia — dosagens concebidas para prevenir raquitismo em populações sedentárias, não para corrigir deficiência em atletas de alto volume. Sem análises ao sangue, é impossível saber se a dose está a ser eficaz.
Ignorar a vitamina K2. A suplementação de vitamina D em doses elevadas deve ser acompanhada de vitamina K2, que dirige o cálcio para os ossos e previne a calcificação vascular. Tomar 2000-5000 UI de vitamina D sem K2 durante meses pode ter consequências indesejadas a nível cardiovascular.
Protocolo Prático
Avaliação: O primeiro passo é sempre analisar os níveis séricos de 25(OH)D. Pede ao médico de família que inclua esta análise no painel anual — em Portugal, geralmente coberta pelo SNS se houver indicação clínica. O objetivo para corredores é estar entre 100-150 nmol/L (40-60 ng/mL).
Suplementação por grau de deficiência:
- Deficiência grave (< 20 ng/mL): 4000-5000 UI/dia durante 8-12 semanas, depois reavaliação
- Insuficiência (20-30 ng/mL): 2000-3000 UI/dia
- Manutenção (> 40 ng/mL): 1000-2000 UI/dia nos meses de outono/inverno; exposição solar no verão
Forma e timing: A vitamina D3 (colecalciferol) é claramente superior à D2 em termos de biodisponibilidade e eficácia na elevação dos níveis séricos. Tomar com a refeição mais gorda do dia aumenta a absorção, já que é uma vitamina lipossolúvel.
Exposição solar estratégica: Nos meses de maio a setembro, 15-20 minutos de exposição direta ao sol entre as 10h e as 15h, com braços e pernas expostos, é suficiente para manter níveis adequados na maioria das pessoas. Não é necessário queimar — a síntese satura rapidamente.
Monitorização: Reavalia os níveis 3 meses após iniciar suplementação. Depois, análise anual como mínimo. Toxicidade por vitamina D é real mas rara — ocorre tipicamente com doses acima de 10.000 UI/dia durante meses, e só deve ser uma preocupação em contexto clínico supervisionado.
A vitamina D é um dos poucos suplementos onde a evidência de benefício (quando há deficiência) e o custo são ambos muito favoráveis. Não é um ergogénico no sentido tradicional — mas corrigir uma deficiência subclínica pode ser o factor que explica a fadiga persistente, as lesões repetidas ou a imunidade comprometida de um corredor que "faz tudo certo."
Referências Científicas
Larson-Meyer, D. E., & Willis, K. S. (2010). Vitamin D and athletes. Current Sports Medicine Reports, 9(4), 220–226. https://doi.org/10.1249/JSR.0b013e3181e7dd45
Cannell, J. J., Hollis, B. W., Sorenson, M. B., Taft, T. N., & Anderson, J. J. B. (2009). Athletic performance and vitamin D. Medicine & Science in Sports & Exercise, 41(5), 1102–1110. https://doi.org/10.1249/MSS.0b013e3181930c2b
Holick, M. F. (2007). Vitamin D deficiency. New England Journal of Medicine, 357(3), 266–281. https://doi.org/10.1056/NEJMra070553
Książek, A., Zagrodna, A., & Słowińska-Lisowska, M. (2019). Vitamin D, skeletal muscle function and athletic performance in athletes — a narrative review. Nutrients, 11(8), 1800. https://doi.org/10.3390/nu11081800
Close, G. L., Leckey, J., Patterson, M., Bradley, W., Owens, D. J., Fraser, W. D., & Morton, J. P. (2013). The effects of vitamin D3 supplementation on serum total 25(OH)D concentration and physical performance: A randomised dose-response study. British Journal of Sports Medicine, 47(11), 692–696. https://doi.org/10.1136/bjsports-2012-091735
