Para completar a primeira ultramaratona de 100 km, é necessário planeamento rigoroso, treino específico, nutrição adequada e recuperação estruturada, bem como compreender as exigências fisiológicas e psicológicas que surgem ao percorrer distâncias tão extensas.
A ultramaratona não é apenas uma prova de resistência; é um desafio multidimensional que envolve biomecânica, metabolismo energético, adaptação neuromuscular e fatores ambientais. O objetivo deste artigo é oferecer um panorama técnico, mas acessível, que permita aos corredores que se preparem para o seu primeiro 100 km.
Primeiro, é importante reconhecer que a distância ultrapassa o limiar de resistência aeróbica típica dos maratonistas, exigindo uma reconfiguração das estratégias de treino e da gestão de recursos fisiológicos. Em seguida, exploraremos os fundamentos científicos que sustentam as adaptações necessárias, apresentaremos exemplos práticos de protocolos de treino, discutiremos os erros mais comuns e concluiremos com um plano de ação resumido.
Base Científica
Fisiologia da Ultra‑Distância
Durante 100 km, a taxa de consumo de oxigénio (VO₂) tende a manter‑se em 60‑70 % do VO₂máx dos corredores de elite, mas a carga metabólica total aumenta exponencialmente. Este regime de esforço prolongado provoca um desequilíbrio entre produção de energia e remoção de subprodutos, levando a um acúmulo de lactato e glicogênio, especialmente nas fases de subida.
Estudos de neuromuscular mostram que após 80 km, há uma redução de 20 % na força isométrica das pernas, evidenciando fadiga muscular profunda (Millet et al., 2011). A biomecânica também se altera: a cadência diminui em 5–10 steps/min, enquanto o passo aumenta de 120 m a 140 m, refletindo uma compensação de eficiência (Vernillo et al., 2017).
Impacto do Terreno Off‑Road
O trail running introduz variáveis de terreno que elevam a carga mecânica. Em subidas, a potência exigida pode chegar a 12 W/kg, enquanto em descidas, a carga de impacto aumenta em 30 % devido ao esforço de controlo (Scheer et al., 2020). A variabilidade do terreno exige um treino que desenvolva estabilidade e propriocepção, além de resistência muscular.
Fatores de Performance em Ultra‑Maratona
Balducci et al. (2017) identificaram que a percentagem de calorias provenientes de carboidratos durante a prova (≈ 65 %) e a taxa de ingestão de líquidos (≈ 1 L/h) são preditores de performance. A capacidade de manter a glicemia entre 70–80 mg/dL evita a “crash” metabólica.
Aplicação Prática
Treino de Volume e Intensidade
- Volume semanal: 80–120 km, com um pico de 200 km no pré‑evento (últimas 3 semanas).
- Treinos de subida: 2×30 min a 70 % da FCmáx, com 3 min de descanso.
- Treinos de descida: 4×15 min a 60 % FCmáx, focando na técnica de controle de velocidade.
Periodização
- Fase de Base (8 sem): 60 km/sem, 70 % FCmáx.
- Fase de Construção (6 sem): 80 km/sem, 75 % FCmáx, introdução de treinos de subida.
- Fase de Pico (4 sem): 120 km/sem, 80 % FCmáx, 1 treino de 100 km simulado.
- Taper (2 sem): redução de 30 % do volume, mantendo intensidade.
Nutrição
- Antes da prova: 300 kcal, 60 % carboidratos, 20 % proteína, 20 % gordura.
- Durante a prova: 30 g de carboidratos/hora (gelo, gel, banana), 500–800 ml de líquido/hora.
- Pós‑prova: 1,5 g/kg de proteína, 5 g/kg de carboidratos, hidratação com eletrólitos.
Equipamento
- Calçado: 350–400 g, amortecimento médio, boa aderência.
- Roupas: compressão nas pernas, camada externa respirável.
- Sistemas de hidratação: mochila de 2 L, garrafas de 250 ml distribuídas ao longo do percurso.
Erros Comuns
- Sobrecarga de Volume: 10 % acima do limite semanal pode levar a lesões por fadiga, como tendinite do patelar.
- Inadequada Recuperação: Falta de sono (≤ 6 h) aumenta o risco de desordem hormonal e diminui a síntese proteica.
- Mau Planeamento Nutricional: Ingestão insuficiente de carboidratos leva a “boné” precoce, enquanto excesso provoca desconforto gastrointestinal.
- Despreparo Mental: Subestimar o componente psicológico pode resultar em abandono prematuro; técnicas de visualização e respiração devem ser incorporadas.
Protocolo/Conclusão
Para quem se prepara para o primeiro 100 km, a chave reside numa abordagem holística que combina volume, intensidade, técnica, nutrição e recuperação. A base científica demonstra que a adaptação neuromuscular e a eficiência biomecânica são críticas; por isso, os treinos devem incluir subidas e descidas, além de sessões de força focadas nos músculos estabilizadores.
Ao seguir a periodização descrita, garantir a ingestão calórica adequada e manter a hidratação, o corredor maximiza a probabilidade de terminar a prova com segurança e performance. Lembre‑se de que a ultra‑maratona é tanto um teste de resistência física quanto de resiliência mental; a preparação mental é tão importante quanto o treino físico.
Referências Científicas
- Vernillo, G., Giandolini, M., Edwards, W. B., Morin, J. B., Samozino, P., Horvais, N., & Millet, G. Y. (2017). Biomechanics and physiology of uphill and downhill running. Sports Medicine, 47(4), 615-629. https://doi.org/10.1007/s40279-016-0605-y
- Millet, G. Y., Tomazin, K., Verges, S., et al. (2011). Neuromuscular consequences of an extreme mountain ultra-marathon. PLoS ONE, 6(2), e17059. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0017059
- Scheer, V., Basset, P., Giovanelli, N., Vernillo, G., Millet, G. P., & Costa, R. J. S. (2020). Defining off-road running: a position statement. Sports Medicine, 50(3), 1-13. https://doi.org/10.1007/s40279-019-01237-0
- Balducci, P., Clémençon, M., Trama, R., Blache, Y., & Hautier, C. (2017). Performance factors in a mountain ultramarathon. International Journal of Sports Medicine, 38(11), 819-825. https://doi.org/10.1055/s-0043-112
Perguntas Frequentes
Qual a carga de trabalho ideal em termos de frequência cardíaca para treinos de subida em uma ultramaratona de 100 km?
A carga ideal fica entre 70 % e 75 % da FCmáx, mantendo o esforço em zona de resistência aeróbica, mas suficientemente intensa para estimular adaptações musculares.
Quantos quilômetros por semana devo correr antes de iniciar a fase de pico?
Entre 80 e 120 km por semana, aumentando progressivamente até atingir 200 km nas três últimas semanas antes da prova.
Como devo ajustar a ingestão de líquidos se o percurso tem temperaturas superiores a 30 °C?
Aumente a ingestão para 800–1000 ml/hora, incluindo eletrólitos, e considere adicionar um suplemento de bicarbonato para melhorar a tolerância ao ácido.
