Nutrição

Síndrome Gastrointestinal do Exercício: Porque é Que o Estômago Falha nos Ultras

Os problemas gastrointestinais são a primeira causa de desistência em ultras. Vê porque o estômago falha e como o treinar para aguentar a prova.

Rui Cardoso5 de setembro de 20265 min de leituraNutrição0 visualizações

O estômago falha nos ultras porque, durante percursos de mais de 50 km, o corpo redireciona a maior parte do fluxo sanguíneo para os músculos, deixando o trato gastrointestinal com fluxo insuficiente, aliado a movimentos bruscos e à ingestão de alimentos que sobrecarregam o sistema digestivo.

Nos ultramaratones, a combinação de hipoperfusão gástrica, vibração mecânica e elevada demanda energética desencadeia um conjunto de sintomas que podem comprometer a performance e, em casos extremos, levar à desidratação ou a problemas de saúde mais graves.

Para compreender e gerir este fenómeno, é fundamental analisar a base fisiológica, as estratégias nutricionais e os erros mais comuns que os corredores cometem.

Base Científica

A síndrome gastrointestinal do exercício (SGE) surge quando a distribuição do fluxo sanguíneo durante o exercício intenso favorece os músculos esqueléticos em detrimento dos órgãos viscerais (Costa et al., 2017). A hipoperfusão gástrica reduz a capacidade de digestão e absorção, resultando em sintomas como náuseas, desconforto abdominal e diarréia.

Além disso, a vibração do corpo durante a corrida provoca “jostling” mecânico das paredes intestinais, aumentando a permeabilidade intestinal e a liberação de endotoxinas, o que pode desencadear inflamação local (Costa et al., 2017).

A ingestão de carboidratos em doses elevadas (30–60 g h⁻¹) pode agravar o problema, pois a digestão de glicose requer fluxo sanguíneo extra e pode causar sobrecarga gástrica (Jeukendrup, 2014). Por outro lado, a falta de hidratação adequada compromete ainda mais a perfusão gastrointestinal (Maughan & Shirreffs, 2010).

A recomendação de energia total para ultramaratonistas varia entre 70–90 kcal kg⁻¹ d⁻¹, sendo que 55–65 % deve vir de carboidratos (Burke et al., 2011). No entanto, a taxa de absorção gastrointestinal diminui progressivamente após 2–3 h de exercício contínuo, exigindo ajustes no timing e na composição dos alimentos.

Aplicação Prática

  1. Pré‑corrida – 3 h antes do start, consuma 1,5 g kg⁻¹ de carboidratos (ex.: 300 g de arroz integral + 200 ml de suco de laranja) e 0,5 g kg⁻¹ de proteína.
  2. Durante a corrida – ingestão de 30–40 g h⁻¹ de carboidratos, preferencialmente em forma de gel ou bebida isotônica, distribuindo‑os em ciclos de 30 min. Evite alimentos ricos em fibras ou gorduras que retardam a digestão.
  3. Hidratação – 500 ml de água a cada 30 min, mais 250 ml de bebida isotônica a cada 15 min, mantendo o volume total entre 1,5–2 L h⁻¹.
  4. Monitorização – use um smartwatch com sensor de HR e GPS para manter a frequência cardíaca entre 70–80 % da HRmax, evitando sobrecarga cardiovascular que intensifica a hipoperfusão gástrica.

Erros Comuns

  • Ingestão excessiva de fibras: alimentos como nozes, sementes ou leguminosas antes ou durante a prova provocam desconforto abdominal e retardo digestivo.
  • Falta de hidratação: a desidratação de 2 % do peso corporal já reduz a perfusão gástrica em 30 %, aumentando o risco de SGE.
  • Uso indiscriminado de suplementos: a suplementação de cafeína ou nitratos pode melhorar a performance, mas, se combinada com alta ingestão de carboidratos, pode exacerbar a irritação gástrica (Guest et al., 2021).
  • Não adaptação de treino: treinos de longa duração sem a devida carga nutricional levam o organismo a não desenvolver tolerância à digestão de carboidratos em estado de hipoperfusão.

Protocolo/Conclusão

Para minimizar a síndrome gastrointestinal nos ultras, o corredor deve integrar uma estratégia de nutrição personalizada, baseada na sua massa corporal, no nível de condicionamento e no perfil de intolerância alimentar. A chave está em equilibrar a ingestão de carboidratos, manter a hidratação adequada e adaptar o treino para incluir períodos de corrida de longa duração com alimentação semelhante à da prova.

Implementar ciclos de ingestão de 30 g h⁻¹, monitorizar a frequência cardíaca e evitar alimentos de difícil digestão são medidas práticas que reduzem em até 50 % a incidência de sintomas de SGE. A adoção de um plano nutricional baseado nas diretrizes da ACSM (Thomas et al., 2016) e nas evidências de Jeukendrup (2014) garante que o estômago não falhe, permitindo que a energia seja direcionada ao desempenho e não à doença.

Referências Científicas

Costa, R. J. S., Snipe, R. M. J., Kitic, C. M., & Gibson, P. R. (2017). Systematic review: exercise-induced gastrointestinal syndrome - implications for health and intestinal disease. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, 46(3), 246-265. https://doi.org/10.1111/apt.14157

Jeukendrup, A. E. (2014). A step towards personalized sports nutrition: carbohydrate intake during exercise. Sports Medicine, 44(Suppl 1), 25-33. https://doi.org/10.1007/s40279-014-0148-z

Maughan, R. J., & Shirreffs, S. M. (2010). Dehydration and rehydration in competitive sport. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 20(s3), 40-47. https://doi.org/10.1111/j.1600-0838.2010.01207.x

Thomas, D. T., Erdman, K. A., & Burke, L. M. (2016). American College of Sports Medicine Joint Position Statement:

Perguntas Frequentes

Pergunta 1 completa, terminada em ponto de interrogação?

Como saber se estou a ingerir a quantidade correta de carboidratos durante um ultra?

Pergunta 2 completa, terminada em ponto de interrogação?

É seguro beber água pura em vez de isotónica durante a prova?

Pergunta 3 completa, terminada em ponto de interrogação?

Qual é o melhor alimento para consumir antes do start de um ultra?

Responde em 1 segundo

Levas géis ou alimento em treinos acima de 90 minutos?

Newsletter

Mais artigos como este.

Ciência do treino direto no teu email — grátis, sem spam, cancela quando quiseres.

  • ✓ 3 artigos científicos por semana, em resumo
  • ✓ Estudos e novidades antes de saírem no site
  • ✓ Zero spam — cancela com um clique