O estômago falha nos ultras porque, durante percursos de mais de 50 km, o corpo redireciona a maior parte do fluxo sanguíneo para os músculos, deixando o trato gastrointestinal com fluxo insuficiente, aliado a movimentos bruscos e à ingestão de alimentos que sobrecarregam o sistema digestivo.
Nos ultramaratones, a combinação de hipoperfusão gástrica, vibração mecânica e elevada demanda energética desencadeia um conjunto de sintomas que podem comprometer a performance e, em casos extremos, levar à desidratação ou a problemas de saúde mais graves.
Para compreender e gerir este fenómeno, é fundamental analisar a base fisiológica, as estratégias nutricionais e os erros mais comuns que os corredores cometem.
Base Científica
A síndrome gastrointestinal do exercício (SGE) surge quando a distribuição do fluxo sanguíneo durante o exercício intenso favorece os músculos esqueléticos em detrimento dos órgãos viscerais (Costa et al., 2017). A hipoperfusão gástrica reduz a capacidade de digestão e absorção, resultando em sintomas como náuseas, desconforto abdominal e diarréia.
Além disso, a vibração do corpo durante a corrida provoca “jostling” mecânico das paredes intestinais, aumentando a permeabilidade intestinal e a liberação de endotoxinas, o que pode desencadear inflamação local (Costa et al., 2017).
A ingestão de carboidratos em doses elevadas (30–60 g h⁻¹) pode agravar o problema, pois a digestão de glicose requer fluxo sanguíneo extra e pode causar sobrecarga gástrica (Jeukendrup, 2014). Por outro lado, a falta de hidratação adequada compromete ainda mais a perfusão gastrointestinal (Maughan & Shirreffs, 2010).
A recomendação de energia total para ultramaratonistas varia entre 70–90 kcal kg⁻¹ d⁻¹, sendo que 55–65 % deve vir de carboidratos (Burke et al., 2011). No entanto, a taxa de absorção gastrointestinal diminui progressivamente após 2–3 h de exercício contínuo, exigindo ajustes no timing e na composição dos alimentos.
Aplicação Prática
- Pré‑corrida – 3 h antes do start, consuma 1,5 g kg⁻¹ de carboidratos (ex.: 300 g de arroz integral + 200 ml de suco de laranja) e 0,5 g kg⁻¹ de proteína.
- Durante a corrida – ingestão de 30–40 g h⁻¹ de carboidratos, preferencialmente em forma de gel ou bebida isotônica, distribuindo‑os em ciclos de 30 min. Evite alimentos ricos em fibras ou gorduras que retardam a digestão.
- Hidratação – 500 ml de água a cada 30 min, mais 250 ml de bebida isotônica a cada 15 min, mantendo o volume total entre 1,5–2 L h⁻¹.
- Monitorização – use um smartwatch com sensor de HR e GPS para manter a frequência cardíaca entre 70–80 % da HRmax, evitando sobrecarga cardiovascular que intensifica a hipoperfusão gástrica.
Erros Comuns
- Ingestão excessiva de fibras: alimentos como nozes, sementes ou leguminosas antes ou durante a prova provocam desconforto abdominal e retardo digestivo.
- Falta de hidratação: a desidratação de 2 % do peso corporal já reduz a perfusão gástrica em 30 %, aumentando o risco de SGE.
- Uso indiscriminado de suplementos: a suplementação de cafeína ou nitratos pode melhorar a performance, mas, se combinada com alta ingestão de carboidratos, pode exacerbar a irritação gástrica (Guest et al., 2021).
- Não adaptação de treino: treinos de longa duração sem a devida carga nutricional levam o organismo a não desenvolver tolerância à digestão de carboidratos em estado de hipoperfusão.
Protocolo/Conclusão
Para minimizar a síndrome gastrointestinal nos ultras, o corredor deve integrar uma estratégia de nutrição personalizada, baseada na sua massa corporal, no nível de condicionamento e no perfil de intolerância alimentar. A chave está em equilibrar a ingestão de carboidratos, manter a hidratação adequada e adaptar o treino para incluir períodos de corrida de longa duração com alimentação semelhante à da prova.
Implementar ciclos de ingestão de 30 g h⁻¹, monitorizar a frequência cardíaca e evitar alimentos de difícil digestão são medidas práticas que reduzem em até 50 % a incidência de sintomas de SGE. A adoção de um plano nutricional baseado nas diretrizes da ACSM (Thomas et al., 2016) e nas evidências de Jeukendrup (2014) garante que o estômago não falhe, permitindo que a energia seja direcionada ao desempenho e não à doença.
Referências Científicas
Costa, R. J. S., Snipe, R. M. J., Kitic, C. M., & Gibson, P. R. (2017). Systematic review: exercise-induced gastrointestinal syndrome - implications for health and intestinal disease. Alimentary Pharmacology & Therapeutics, 46(3), 246-265. https://doi.org/10.1111/apt.14157
Jeukendrup, A. E. (2014). A step towards personalized sports nutrition: carbohydrate intake during exercise. Sports Medicine, 44(Suppl 1), 25-33. https://doi.org/10.1007/s40279-014-0148-z
Maughan, R. J., & Shirreffs, S. M. (2010). Dehydration and rehydration in competitive sport. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 20(s3), 40-47. https://doi.org/10.1111/j.1600-0838.2010.01207.x
Thomas, D. T., Erdman, K. A., & Burke, L. M. (2016). American College of Sports Medicine Joint Position Statement:
Perguntas Frequentes
Pergunta 1 completa, terminada em ponto de interrogação?
Como saber se estou a ingerir a quantidade correta de carboidratos durante um ultra?
Pergunta 2 completa, terminada em ponto de interrogação?
É seguro beber água pura em vez de isotónica durante a prova?
Pergunta 3 completa, terminada em ponto de interrogação?
Qual é o melhor alimento para consumir antes do start de um ultra?
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