Biomecânica

Overstriding: O Erro de Passada Que Causa 80% das Lesões

Overstriding — aterrar com o pé bem à frente do centro de massa — transforma cada passada num pequeno travão. Percebe porque é um dos padrões mais associados a lesões de sobrecarga e como corrigi-lo sem criar um problema novo.

Rui Cardoso24 de julho de 20264 min de leituraBiomecânica0 visualizações

Overstriding é o termo técnico para um erro de passada muito específico: o pé toca o solo bem à frente do centro de massa do corpo, em vez de aterrar próximo dele. O resultado é um contacto inicial que atua como um travão a cada passo — em vez de propulsão, gera-se uma força de frenagem que o corpo tem de absorver antes de conseguir avançar. É um dos padrões de passada mais associados a lesões de sobrecarga em corredores de fundo, precisamente porque multiplica o número de vezes que essa força de impacto é aplicada ao longo de um treino ou de uma prova.

O problema raramente aparece isolado. Overstriding tende a associar-se a cadências baixas para a velocidade em causa, a uma postura mais vertical com o tronco recuado e a défices de força nos glúteos e na cadeia posterior, que deveriam controlar a queda do centro de massa a cada apoio. Corredores que aumentam volume ou intensidade de forma rápida, sem trabalho de técnica ou de força em paralelo, são os mais suscetíveis a desenvolver ou agravar este padrão.

Base Científica

Lieberman et al. (2010) demonstraram que o padrão de contacto do pé — e a distância a que esse contacto ocorre relativamente ao centro de massa — determina a magnitude do pico de força de impacto transmitido à perna nos primeiros milissegundos após o apoio. Quanto mais à frente o pé aterra, maior tende a ser esse pico, sobretudo em corredores que aterram de calcanhar com o joelho quase em extensão total.

Num estudo retrospetivo com mais de 50 corredores de longa distância, Daoud et al. (2012) associaram o padrão de aterragem ao histórico de lesões de sobrecarga, reforçando que a forma como o pé contacta o solo — e não apenas o volume de treino — é uma variável relevante na equação da lesão. Novacheck (1998), numa revisão de referência sobre a biomecânica da corrida, situa este mecanismo dentro da cadeia cinética completa: overstriding raramente é apenas um "problema do pé", é normalmente o sintoma visível de défices mais acima, na anca e no tronco.

Aplicação Prática

Corrigir overstriding não passa por forçar um novo padrão de aterragem de um dia para o outro — isso troca um problema por outro (tipicamente sobrecarga no tricípite sural e no tendão de Aquiles). A abordagem com melhor relação risco-benefício trabalha três frentes em simultâneo:

  • Cadência: aumentar a cadência em 5-8% tende a encurtar naturalmente a passada e a aproximar o ponto de contacto do centro de massa, sem exigir uma reeducação consciente do padrão de aterragem (Moore, 2016).
  • Postura em corrida: procurar uma ligeira inclinação do tronco a partir do tornozelo (não da cintura), com o objetivo de "cair para a frente" a cada passo em vez de travar o avanço.
  • Força específica: trabalho de glúteos e isquiotibiais — pontes de glúteo unilaterais, peso morto romeno, step-ups — para dar à cadeia posterior a capacidade de controlar a fase de apoio em vez de deixar o impacto ser absorvido passivamente pela articulação do joelho.

Erros Comuns

  • Tentar corrigir a aterragem do pé isoladamente (por exemplo, forçar apoio de antepé) sem mexer em cadência ou postura — o resultado mais comum é sobrecarga do gémeo e do tendão de Aquiles em poucas semanas.
  • Ignorar o trabalho de força de anca e glúteos, tratando o overstriding como um problema puramente técnico quando muitas vezes tem origem numa cadeia posterior fraca.
  • Fazer a correção de forma abrupta em vez de progressiva — qualquer mudança de padrão de movimento precisa de semanas de adaptação tecidular, não de uma sessão.
  • Avaliar a passada apenas a olho nu: uma análise de vídeo simples (mesmo com telemóvel, a câmara lenta, de lado) revela muito mais do que a perceção subjetiva durante a corrida.

Protocolo/Conclusão

Overstriding não se resolve com uma correção pontual — resolve-se tratando-o como o sintoma de um sistema (cadência, postura e força) que precisa de ajuste coordenado ao longo de várias semanas. Começa por perceber se o padrão está mesmo presente (vídeo lateral a ritmo de treino habitual), introduz um aumento moderado de cadência como primeira alavanca, e associa trabalho de força de glúteos e cadeia posterior duas a três vezes por semana. É uma correção gradual, não um interruptor — mas é também uma das intervenções técnicas com melhor evidência de redução do risco de lesão de sobrecarga em corredores de fundo.

Referências Científicas

  1. Moore, I. S. (2016). Is there an economical running technique? A review of modifiable biomechanical factors affecting running economy. Sports Medicine, 46(6), 793-807. https://doi.org/10.1007/s40279-016-0474-4
  2. Lieberman, D. E., Venkadesan, M., Werbel, W. A., Daoud, A. I., D'Andrea, S., Davis, I. S., Mang'eni, R. O., & Pitsiladis, Y. (2010). Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners. Nature, 463(7280), 531-535. https://doi.org/10.1038/nature08723
  3. Novacheck, T. F. (1998). The biomechanics of running. Gait & Posture, 7(1), 77-95. https://doi.org/10.1016/S0966-6362(97)00038-6
  4. Daoud, A. I., Geissler, G. J., Wang, F., Saretsky, J., Daoud, Y. A., & Lieberman, D. E. (2012). Foot strike and injury rates in endurance runners: a retrospective study. Medicine & Science in Sports & Exercise, 44(7), 1325-1334. https://doi.org/10.1249/MSS.0b013e3182465115

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