Nutrição

Eletrólitos e Hiponatremia em Ultra Trail: O Que Pode Matar um Atleta Bem Hidratado

A hiponatremia por exercício é uma das emergências médicas mais perigosas em ultra trail — e paradoxalmente afeta atletas que bebem demasiado. Aprende a gerir os eletrólitos em provas longas.

Rui Cardoso27 de junho de 20269 min de leituraNutrição0 visualizações

Introdução

Em 2002, a maratona de Boston assistiu a 13 corredores hospitalizados com hiponatremia grave. Dois anos depois, Cynthia Lucero morreu 16 horas após terminar a mesma prova. A causa: bebeu demasiada água sem sódio suficiente. Esta tragédia, que abalou o mundo da corrida de longa distância, ilustra um paradoxo perturbador: em ultra trail e maratona, a ameaça fisiológica mais grave muitas vezes não é a desidratação — é a hiperidratação sem eletrólitos.

Os eletrólitos — sódio, potássio, magnésio, cálcio e cloreto — não são apenas "sais" que se perdem no suor. São reguladores fundamentais do equilíbrio hídrico, da contração muscular e da função nervosa. Em provas ultra com 8, 12 ou 24 horas de esforço, a sua gestão é tão crítica como a da energia ou da hidratação. Este artigo explora a fisiologia dos eletrólitos em esforço prolongado, os riscos reais da hiponatremia e os protocolos para a evitar.

Fisiologia dos Eletrólitos na Corrida de Longa Duração

O sódio é o eletrólito extracelular dominante e o principal regulador do volume plasmático e da osmolaridade sérica. Em repouso, a concentração normal de sódio no sangue situa-se entre 135 e 145 mEq/L. Qualquer desvio significativo deste intervalo — por excesso ou por défice — tem consequências fisiológicas imediatas.

Durante a corrida, perdem-se eletrólitos através do suor. A concentração de sódio no suor varia entre 20 e 80 mEq/L, com uma média de aproximadamente 40-60 mEq/L — muito inferior à concentração sérica. Isto significa que, ao transpirar, perdemos mais água do que sódio proporcionalmente. Se repormos apenas água (sem sódio), diluímos o sódio sérico.

Potassio, magnésio e cálcio também são perdidos no suor, mas em quantidades proporcionalmente menores. O potássio é relevante para a função muscular e o ritmo cardíaco; o magnésio participa em mais de 300 reações enzimáticas incluindo a síntese de ATP; o cálcio é essencial para a contração muscular. Em provas ultra com mais de 6-8 horas, os défices acumulados destes minerais podem contribuir para cãibras, fadiga muscular excessiva e perturbações do ritmo cardíaco.

A hiponatremia por exercício (EAH — Exercise-Associated Hyponatremia) define-se como sódio sérico abaixo de 135 mEq/L durante ou após exercício. Apresenta dois mecanismos principais:

  1. Hiponatremia dilucional: beber volumes excessivos de fluidos hipotónicos (água simples ou bebidas com pouco sódio), diluindo o sódio sérico. É o mecanismo mais comum em ultramaratonas.

  2. Hiponatremia por perda: perda excessiva de sódio pelo suor sem reposição adequada, menos comum mas possível em indivíduos com sudação muito salgada ("salty sweaters") em provas muito longas com calor intenso.

Os sintomas de hiponatremia evoluem com a gravidade: náusea e inchaço precoces, confusão mental, convulsões e, nos casos mais graves, edema cerebral e morte. O detalhe crítico: os sintomas de hiponatremia moderada (náusea, tontura, mal-estar) mimetizam os sintomas de desidratação. Administrar mais água a um atleta com hiponatremia pode ser letal.

Fatores de Risco em Ultra Trail

Estudos epidemiológicos em provas de ultra trail revelam que a prevalência de hiponatremia sintomática varia entre 1% e 13% dos participantes, dependendo das condições e do protocolo de hidratação seguido.

Os principais fatores de risco incluem:

Consumo excessivo de fluidos: beber muito acima da taxa de sudação é o principal fator de risco modificável. Em provas de ultra trail onde os postos de abastecimento são frequentes e a cultura "bebe quanto puderes" persiste, o risco aumenta.

Ritmo lento: atletas mais lentos passam mais tempo em prova e têm mais oportunidades de acumular excesso de fluidos. Paradoxalmente, os corredores mais rápidos (que perdem mais suor por hora) têm menos risco de hiponatremia.

Género feminino e baixo peso corporal: estudos demonstram consistentemente maior prevalência de EAH em mulheres, possivelmente relacionado com menor massa muscular (reservatório de água intracelular), diferenças hormonais na regulação renal de sódio e, possivelmente, maior tendência para seguir recomendações de hidratação agressiva.

Ganho de peso durante a prova: qualquer aumento de peso durante uma corrida é sinal inequívoco de retenção excessiva de fluidos e deve ser encarado como sinal de alarme.

Uso de AINEs: anti-inflamatórios não esteróides (ibuprofeno, etc.) prejudicam a excreção renal de água e potenciam o risco de hiponatremia. O seu uso em ultra trail é desaconselhado.

Protocolo de Gestão de Eletrólitos em Provas Ultra

Sódio — A Prioridade

A estratégia mais eficaz de prevenção de hiponatremia é simples: nunca beber volumes superiores à taxa de sudação e garantir ingestão adequada de sódio.

Quantidade de sódio recomendada em prova: 500-1000 mg/hora em condições normais; até 1500-2000 mg/hora em calor intenso ou em indivíduos com sudação muito salgada.

Fontes práticas de sódio em ultra trail:

  • Cápsulas de eletrólitos (e.g., SaltStick, Precision Hydration): 215-341 mg sódio por cápsula
  • Bebidas desportivas: 400-700 mg/litro (verificar sempre o rótulo)
  • Alimentos nos postos: caldo de sopa (300-600 mg por chávena), batatas cozidas com sal, pretzels, queijo
  • Gel + água com sal adicionado

Regra prática: se estás a beber água simples, complementa sempre com cápsulas de sal ou alimentos salgados. Nunca confias apenas nos géis — a maioria tem menos de 100 mg de sódio por unidade.

Potássio, Magnésio e Cálcio

Para provas até 6-8 horas, os défices de potássio, magnésio e cálcio raramente são clínicos se a alimentação for adequada. Para provas mais longas:

  • Potássio: presente em fruta, especialmente banana (422 mg por banana média). Incluir nos postos de abastecimento.
  • Magnésio: cereais, frutos secos, chocolate negro. Em provas muito longas, alguns atletas usam suplementação (150-300 mg/dia nas semanas anteriores).
  • Cálcio: lacticínios, amêndoas. Dificilmente crítico durante a prova em si.

Como Monitorizar em Prova

O indicador mais simples e acessível é o peso corporal:

  • Perda de 1-2% do peso = aceitável, desempenho mínimamente afetado
  • Perda de 3-5% = desidratação moderada, hidratação ativa necessária
  • Ganho de peso = sinal de alarme de hiperidratação/hiponatremia

Nos postos de controlo de provas longas onde existe pesagem, usar sempre esta informação para ajustar a estratégia de fluidos.

Erros Fatais a Evitar

Erro 1: "Bebe sempre que podes." Esta recomendação, comum em grupos de treino, é perigosa em ultra trail. Beber acima da taxa de sudação não melhora a performance — causa hiponatremia.

Erro 2: Ignorar sintomas de hiponatremia precoce. Náusea, inchaço, dores de cabeça e sensação de "não estar bem" durante uma prova num atleta que bebeu muito são sinais de alerta. Não dar mais água — dar sal e esperar pelo apoio médico se necessário.

Erro 3: Usar AINEs preventivamente. Ibuprofen tomado "para prevenir a dor" em ultra trail aumenta significativamente o risco de hiponatremia e lesão renal aguda.

Erro 4: Confiar apenas em bebidas desportivas comerciais. Em provas muito longas com sudação intensa, o sódio das bebidas desportivas padrão pode ser insuficiente. Complementar com cápsulas de sal ou alimentos salgados é essencial.

Erro 5: Não testar a estratégia em treino. A gestão de eletrólitos em prova deve ser praticada e ajustada em treinos longos antes da competição. Nunca experimentar algo novo em prova.

Protocolo de Emergência no Terreno

Se um atleta apresentar confusão mental, convulsões ou colapso durante ou após uma prova ultra:

  1. Não dar fluidos orais até avaliação médica
  2. Posicionar em decúbito lateral (posição de recuperação)
  3. Alertar a organização e equipa médica imediatamente
  4. Se disponível, medir sódio sérico antes de qualquer intervenção hídrica

A distinção entre desidratação e hiponatremia no terreno é difícil sem análise de sangue. Na dúvida, nunca administrar líquidos hipotónicos a um atleta colapsado.

Conclusão

Os eletrólitos — especialmente o sódio — são a variável mais crítica e mais ignorada na nutrição de ultra trail. Numa modalidade onde os atletas passam 8, 24 ou 48 horas em movimento, a gestão hídrica sem atenção aos eletrólitos é incompleta e potencialmente perigosa. O protocolo é simples: beber pela sede (não por horário fixo), garantir 500-1000 mg de sódio por hora e nunca sair de um posto de abastecimento mais pesado do que entraste.

Referências Científicas

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