Fisiologia

VO2max: Quanto é Genética e Quanto Podes Melhorar com Treino?

O VO2max é determinado em parte pela genética — mas a resposta ao treino varia enormemente entre pessoas. A ciência explica o que podes controlar.

Rui Cardoso23 de junho de 20255 min de leituraFisiologia0 visualizações

O VO2max — consumo máximo de oxigénio — é muitas vezes apresentado como o "teto" da capacidade aeróbica. Mas quanto desse teto é genético e quanto podes elevar com treino? A resposta é mais encorajadora do que muitos pensam.

O que é o VO2max exatamente?

É a quantidade máxima de oxigénio (em mililitros) que o teu corpo consegue usar por minuto, por quilograma de peso. Um homem sedentário tem tipicamente 35-40 ml/kg/min. Um corredor recreativo treinado, 50-60. Eliud Kipchoge tem um VO2max estimado de ~85.

O VO2max depende de três sistemas:

  1. Pulmões — capacidade de absorver oxigénio do ar
  2. Coração — capacidade de bombear sangue oxigenado
  3. Músculos — capacidade de usar o oxigénio entregue

O papel da genética

Estudos com gémeos idênticos mostram que 40-70% da variação no VO2max entre pessoas é explicada pela genética. Isso inclui:

  • Volume cardíaco (tamanho do coração)
  • Densidade de capilares musculares
  • Proporção de fibras musculares tipo I (lentas, eficientes)

O "Heritage Family Study" — um dos maiores estudos sobre genética e exercício — mostrou que a resposta ao treino varia enormemente: alguns participantes aumentaram o VO2max em 40-50% com o mesmo programa de treino, enquanto outros quase não responderam.

Quanto podes melhorar com treino?

A maioria das pessoas não treinadas pode aumentar o VO2max em 15-25% com treino consistente. Atletas já treinados têm margem menor — 5-10% — mas esse ganho pode significar diferenças grandes na performance.

O que mais aumenta o VO2max:

  • Volume de treino aeróbico elevado (o "motor" base)
  • Intervalos de alta intensidade (4-8 minutos a 90-100% do VO2max)
  • Treino de longa duração

O timing importa: o VO2max responde bem ao treino nos primeiros 2-3 anos. Depois, os ganhos abrandam e o foco desloca-se para outros determinantes de performance (limiar de lactato, economia de corrida).

VO2max vs outros determinantes de performance

Aqui está o segredo que muitos ignoram: o VO2max explica a performance na corrida menos do que se pensa quando comparas atletas com VO2max semelhante.

Para corredores de nível similar, o que mais diferencia a performance são:

  1. Limiar de lactato — a que % do VO2max consegues correr sustentadamente
  2. Economia de corrida — quanto oxigénio gastas por km a cada ritmo

Dois corredores com VO2max de 60 ml/kg/min podem ter tempos de maratona com 20+ minutos de diferença dependendo do seu limiar e economia.

O que isto significa para o teu treino

Se o teu VO2max é o teu ponto forte — desenvolves-o com intervalos de alta intensidade.

Se já atingiste um planalto no VO2max — investe em treino de limiar e de força para melhorar a economia de corrida.

A mensagem importante: a genética define o teto, mas a maioria das pessoas está muito longe do seu teto genético. Há sempre espaço para melhorar.

Referências Científicas

Bouchard, C., et al. (1999). Familial aggregation of VO2max response to exercise training: Results from the Heritage Family Study. Journal of Applied Physiology, 87(3), 1003–1008. https://doi.org/10.1152/jappl.1999.87.3.1003

Coyle, E. F. (1995). Integration of the physiological factors determining endurance performance ability. Exercise and Sport Sciences Reviews, 23, 25–63.

Joyner, M. J., & Coyle, E. F. (2008). Endurance exercise performance: The physiology of champions. Journal of Physiology, 586(1), 35–44. https://doi.org/10.1113/jphysiol.2007.143834

Vollaard, N. B. J., et al. (2009). Systematic analysis of adaptations in aerobic capacity and submaximal energy metabolism provides a unique insight into determinants of human aerobic performance. Journal of Applied Physiology, 106(5), 1479–1486. https://doi.org/10.1152/japplphysiol.91453.2008

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