Treino

Pacing: A Arte de Gerir o Ritmo e Não Morrer ao Km 30

O pacing separa quem faz boa maratona de quem sobrevive à segunda metade. Percebe a fisiologia de gerir o ritmo e aprende a estratégia certa para a prova.

Rui Cardoso22 de junho de 20266 min de leituraTreino0 visualizações

Há uma estatística curiosa na maratona: mais de 90% dos corredores amadores fazem a segunda metade mais devagar do que a primeira. Em média, os participantes de uma maratona de massas abrandam 8-15 minutos na segunda metade comparado com a primeira.

Isso não é má sorte. É física.

O Problema do Início Rápido

A adrenalina da partida, o ritmo dos corredores à volta, o sentimento de estar "bem demais" nos primeiros quilómetros — são forças poderosas que puxam para começar demasiado rápido. E os efeitos pagam-se caro.

A fisiologia explica porquê: quando excedes o teu limiar de lactato logo nos primeiros quilómetros, o lactato começa a acumular-se no sangue. O metabolismo anaeróbio contribui para o esforço, as reservas de glicogénio esgotam-se mais rápido, e a fadiga instala-se muito antes do km 35.

Mesmo uma diferença de 5-10 segundos por km nos primeiros 15 km, mantida de forma consistente acima do ritmo de prova ideal, pode resultar numa queda dramática nos últimos 10 km.

O que é Pacing Equal Splits e Negative Splits

Equal splits: correr a primeira e segunda metade exactamente ao mesmo ritmo. É o objetivo realista para a maioria dos corredores.

Negative splits: correr a segunda metade mais rápido do que a primeira. É a estratégia de elite — Eliud Kipchoge fez o seu recorde mundial com negative splits. Para amadores, é possível mas exige experiência e auto-controlo excepcional nos primeiros quilómetros.

Positive splits: a segunda metade mais devagar — o que acontece a 90% dos corredores amadores.

O objetivo para qualquer corredor que queira maximizar o seu potencial numa maratona é equal splits ou ligeiros negative splits.

A Fisiologia do "Bater na Parede"

O "muro" da maratona — tipicamente entre os km 30-35 — tem uma causa fisiológica específica: depleção de glicogénio muscular.

O músculo esquelético armazena cerca de 300-500g de glicogénio (dependendo do tamanho corporal e do estado de treino). A uma intensidade de maratona, esse glicogénio esgota-se em aproximadamente 28-35 km. Quando isso acontece, o corpo recorre quase exclusivamente à gordura — que é mais lenta a oxidar, exigindo ritmo mais lento.

Há três formas de adiar ou evitar o muro:

  1. Começar mais devagar: ritmo abaixo do limiar = menor taxa de utilização de glicogénio
  2. Carbo-loading: maximizar as reservas de glicogénio antes da prova
  3. Nutrição durante a prova: ingerir 40-60g de hidratos por hora a partir do km 10-15

Como Calcular o Teu Ritmo de Prova Ideal

A forma mais fiável de calcular o ritmo de maratona é a partir das tuas performances recentes noutras distâncias.

Calculadoras de equivalência (fórmula de Riegel):

| Distância | Tempo | Ritmo de maratona equivalente | |---|---|---| | 10km | 45:00 | ~3:30/km → 2h27 | | 10km | 50:00 | ~3:54/km → 2h45 | | 10km | 60:00 | ~4:41/km → 3h18 | | Meia maratona | 1:45 | ~4:56/km → 3h29 | | Meia maratona | 2:00 | ~5:38/km → 3h58 |

Nota importante: as calculadoras assumem preparação específica para a distância. Se fizeste o teu 10km mas nunca correste além de 25 km em treino, o ritmo calculado é otimista — começa 5-10s/km mais devagar.

Estratégia de Pacing por Sectores

Uma abordagem prática para gerir o ritmo numa maratona:

Km 0-10: Mais devagar do que o ritmo de prova

Começa 8-10 segundos por km mais devagar do que o teu ritmo alvo. Parece desnecessariamente conservador. Não é.

Nesta fase: os músculos ainda estão "frios", o sistema cardiorrespiratório ainda está a ajustar, e a adrenalina está a mascarar o esforço real. Confia no relógio, não na sensação.

Km 10-20: Ritmo de prova estável

Encontra o ritmo alvo e mantém-no com precisão. O esforço deve parecer "controlado mas sustentado". Se parecer fácil, está certo — nos km 30-40 já não vai parecer.

Km 20-30: Manter a disciplina

Esta é a fase psicologicamente mais difícil. As pernas começam a ficar pesadas, a motivação pode vacilar. Não aumentes o ritmo mesmo que te sintas bem — paga os dividendos nos últimos 12 km.

Mantém o foco em pequenos objetivos: chegar ao próximo km, ao próximo posto de água, ao próximo marcador.

Km 30-42: Gerir e (se possível) acelerar

Se seguiste a estratégia, chegaste ao km 30 com reservas. Agora podes testar.

Se tens pernas: aumenta 5-10 seg/km progressivamente. Se estás a sofrer: mantém o ritmo — é melhor do que abrandar. Se o muro chegou mesmo: abranda controladamente, não entres em colapso.

Ferramentas de Pacing

Relógio GPS com alertas de ritmo: configura alertas de "mínimo" e "máximo" por km. Se sair da zona, sabes de imediato.

Pacemakers (liebres): em provas grandes, sigue o pacemaker do teu objetivo. É a forma mais eficaz de manter ritmo — remove a decisão e a ansiedade de calcular.

Bandas de ritmo no braço: cartões de ritmo por km para cada sector. Úteis em provas sem GPS fiável (túneis, zonas urbanas densas).

O Treino do Pacing

O pacing é uma competência — e como tal, treina-se.

Treino de sensação de ritmo: corre 1-2 km sem olhar para o relógio, tenta acertar no teu ritmo alvo. Compara. Com prática, a sensação afina-se.

Simulações parciais: nos últimos 6-8 km das corridas longas progressivas, mantém o ritmo de prova. O corpo aprende como soa e sente esse esforço com pernas já fatigadas.

Corridas de meia maratona como teste: uma meia maratona bem pacida 8-10 semanas antes da maratona dá informação preciosa sobre o ritmo real e a gestão de esforço.

O Princípio Final

O melhor pacing não é o mais dramático — é o mais chato. É correr o km 5 quase igual ao km 25, igual ao km 38.

Os corredores que chegam ao km 40 ainda a correr bem não são super-heróis. São corredores que foram pacientes nos primeiros 30 km quando toda a gente ao redor estava a ir mais rápido.

A maratona recompensa quem espera. Sempre.

Referências

Abbiss, C. R., & Laursen, P. B. (2008). Describing and understanding pacing strategies during athletic competition. Sports Medicine, 38(3), 239–252.

Hanley, B. (2016). Pacing, packing and sex-based differences in Olympic and IAAF World Championship marathons. Journal of Sports Sciences, 34(17), 1675–1681.

Tucker, R., & Noakes, T. D. (2009). The anticipatory regulation of performance: The physiological basis for pacing strategies and the development of a perception-based model for exercise performance. British Journal of Sports Medicine, 43(6), 392–400.

Santos-Lozano, A., et al. (2014). Pacing strategy of the best performersNT in the world half-marathon record. Journal of Strength and Conditioning Research, 28(4), 1143–1150.

Renfree, A., & Gibson, A. S. C. (2013). Influence of different performance levels on pacing strategy during the women's world championship marathon race. International Journal of Sports Physiology and Performance, 8(3), 267–273.

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