Fisiologia

Corrida e Ciclo Menstrual: Como Adaptar o Treino às Fases

As flutuações hormonais ao longo do ciclo menstrual influenciam a recuperação, o metabolismo e o risco de lesão. Descobre o que diz a ciência atual e como periodizar o treino de forma individualizada.

Rui Cardoso2 de julho de 20269 min de leituraFisiologia0 visualizações

Introdução

Durante muito tempo, a fisiologia do exercício foi estudada quase exclusivamente em homens, e o ciclo menstrual foi tratado como uma variável a evitar em vez de compreender. Hoje, a investigação reconhece que as flutuações de estrogénio e progesterona ao longo do ciclo têm efeitos mensuráveis sobre o metabolismo, a termorregulação, a recuperação e, possivelmente, o risco de lesão. Ao mesmo tempo, a ciência é clara noutro ponto: a variabilidade individual é enorme e a evidência sobre "treinar de acordo com as fases" é ainda limitada e por vezes contraditória. Este artigo procura o equilíbrio entre reconhecer os efeitos hormonais reais e evitar prescrições rígidas que não se sustentam nos dados. O objetivo é dar às corredoras ferramentas para monitorizar, individualizar e otimizar o treino — sem transformar o ciclo numa desculpa nem ignorá-lo por completo.

A Base Científica: As Fases e as Hormonas

O ciclo menstrual típico dura em média 28 dias (com variação normal entre 21 e 35) e divide-se em duas grandes fases separadas pela ovulação. A fase folicular vai do primeiro dia da menstruação até à ovulação; caracteriza-se por níveis baixos de progesterona e um aumento progressivo do estrogénio, que atinge um pico pré-ovulatório. A fase lútea segue a ovulação e é dominada por níveis elevados de progesterona, com um segundo aumento moderado de estrogénio.

Estas hormonas têm efeitos fisiológicos relevantes. O estrogénio tem ação anabólica e favorece a utilização de gordura como substrato, além de influenciar a função vascular e a resistência tendinosa. A progesterona, por seu lado, é catabólica, aumenta a temperatura corporal basal em cerca de 0,3 a 0,5 °C e pode elevar a ventilação e a frequência cardíaca em repouso. Na fase lútea tardia, muitas atletas relatam sintomas pré-menstruais — retenção de líquidos, fadiga, alterações de humor — que podem afetar a perceção de esforço mais do que a capacidade física objetiva.

Do ponto de vista do desempenho, uma revisão sistemática e meta-análise de referência concluiu que os efeitos das fases do ciclo sobre a performance de exercício são, em média, triviais a pequenos e altamente variáveis entre indivíduos. Ou seja, não existe uma fase universalmente "boa" ou "má" para todas as mulheres. O que a ciência sugere com mais consistência são efeitos em domínios específicos: a fase lútea tardia pode dificultar o exercício em calor devido à temperatura basal mais alta, e há indícios (ainda debatidos) de que a laxidez ligamentar associada ao pico de estrogénio possa aumentar ligeiramente o risco de lesão do ligamento cruzado anterior — embora este dado seja mais relevante em desportos de mudança de direção do que na corrida linear.

Aplicação Prática: Monitorizar e Individualizar

Dada a variabilidade individual, a estratégia mais sólida não é seguir um calendário genérico, mas sim monitorizar o próprio ciclo e as respostas pessoais. Registar durante três a quatro ciclos a data da menstruação, a qualidade do sono, a frequência cardíaca em repouso, a variabilidade da frequência cardíaca (HRV), a perceção de esforço e o desempenho em sessões-chave permite identificar padrões reais, específicos de cada atleta.

Com esses dados, algumas adaptações fazem sentido. Se uma corredora sente consistentemente maior fadiga e pior recuperação na fase lútea tardia, pode fazer coincidir aí uma semana de descarga (deload) ou reduzir ligeiramente a intensidade, deslocando as sessões mais exigentes para a fase folicular, quando muitas relatam sentir-se mais fortes. Em treino ou prova em calor durante a fase lútea, vale reforçar as estratégias de arrefecimento e hidratação, dada a temperatura basal mais elevada.

A nutrição também merece atenção. A fase lútea tende a associar-se a maior gasto energético em repouso e a maior apetite; garantir ingestão energética e de hidratos de carbono suficiente é importante para evitar défice. O ferro é uma preocupação particular nas atletas com menstruações abundantes, pelo risco acrescido de anemia, que compromete diretamente a capacidade aeróbia. Fundamentalmente, ciclos regulares são um sinal de saúde energética: a amenorreia (ausência de menstruação) é um dos marcadores da deficiência energética relativa no desporto (RED-S), uma condição séria que exige atenção médica.

Erros Comuns

O primeiro erro é aplicar protocolos rígidos de "treino baseado nas fases" copiados da internet, ignorando que a resposta individual varia enormemente e que a evidência de benefício é fraca. O segundo é o oposto: negar qualquer influência hormonal e não ajustar o treino mesmo quando a atleta sente claramente diferenças cíclicas na recuperação ou na disposição. O terceiro, e mais grave, é interpretar a ausência de menstruação como um sinal positivo de "leveza" ou baixo peso — na verdade, a amenorreia associada ao treino é um alerta de baixa disponibilidade energética, com consequências para os ossos, o sistema endócrino e a performance a longo prazo. O quarto erro é descurar o ferro, subestimando o impacto das perdas menstruais na capacidade de transporte de oxigénio.

Protocolo Prático

Começa por registar o ciclo e marcadores de recuperação durante pelo menos três ciclos, usando uma aplicação ou uma folha simples. Procura padrões individuais em vez de assumir regras universais. Se identificares fadiga recorrente na fase lútea tardia, alinha aí uma semana de menor carga e concentra as sessões de qualidade na fase folicular. Reforça arrefecimento e hidratação em esforços de calor na fase lútea. Assegura ingestão energética e de hidratos adequada ao longo de todo o ciclo, com atenção acrescida na fase lútea. Monitoriza os níveis de ferro com análises regulares, sobretudo se tiveres menstruações abundantes. E trata a regularidade menstrual como um indicador de saúde: se a menstruação desaparecer, procura avaliação médica em vez de a ignorar. A mensagem central é individualização baseada em dados, não dogma — o teu ciclo é uma fonte de informação valiosa, não uma limitação fixa.

Referências Científicas

McNulty, K. L., Elliott-Sale, K. J., Dolan, E., Swinton, P. A., Ansdell, P., Goodall, S., Thomas, K., & Hicks, K. M. (2020). The effects of menstrual cycle phase on exercise performance in eumenorrheic women: A systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 50(10), 1813–1827. https://doi.org/10.1007/s40279-020-01319-3

Elliott-Sale, K. J., Minahan, C. L., de Jonge, X. A. K. J., Ackerman, K. E., Sipilä, S., Constantini, N. W., Lebrun, C. M., & Hackney, A. C. (2021). Methodological considerations for studies in sport and exercise science with women as participants: A working guide for standards of practice for research on women. Sports Medicine, 51(5), 843–861. https://doi.org/10.1007/s40279-021-01435-8

Mountjoy, M., Sundgot-Borgen, J., Burke, L., Ackerman, K. E., Blauwet, C., Constantini, N., et al. (2018). IOC consensus statement on relative energy deficiency in sport (RED-S): 2018 update. British Journal of Sports Medicine, 52(11), 687–697. https://doi.org/10.1136/bjsports-2018-099193

Oosthuyse, T., & Bosch, A. N. (2010). The effect of the menstrual cycle on exercise metabolism: Implications for exercise performance in eumenorrhoeic women. Sports Medicine, 40(3), 207–227. https://doi.org/10.2165/11317090-000000000-00000

Newsletter

Mais artigos como este.

Ciência do treino direto no teu email — grátis, sem spam, cancela quando quiseres.

  • 3 artigos científicos por semana, em resumo
  • Estudos e novidades antes de saírem no site
  • Zero spam — cancela com um clique