Arquivo
Lesões

Canelite (Shin Splints): Causas, Tratamento e Prevenção

A dor na parte anterior da perna é um dos problemas mais comuns em corredores iniciantes. Sabes distinguir a canelite de stress da fíbula? A ciência tem respostas claras sobre causas e solução.

2 de julho de 20255 min de leituraLesões0 visualizações

A canelite — dor ao longo da tíbia durante e após a corrida — é das queixas mais frequentes em corredores que aumentam volume demasiado rápido. É frustrante porque pode persistir semanas se não for tratada corretamente. Mas é largamente prevenível.

O que é a canelite exatamente?

O termo "shin splints" (canelite) é um nome popular que cobre duas condições distintas:

Síndrome do Stress Medial da Tíbia (SSTM): dor difusa ao longo do terço médio/inferior da face interna da tíbia. Dói ao toque numa zona extensa. É a "canelite" clássica — microlesões nos músculos e periosteu (membrana óssea) da tíbia.

Fratura de stress da tíbia: dor localizada num ponto específico, muito intensa ao toque. Mais grave. Distingue-se pelo sinal da "ressonância" — bater suavemente no osso irradia dor.

Se tens dor muito localizada e intensa num ponto específico, consulta um médico — pode ser fratura de stress.

Por que ocorre a canelite?

As causas identificadas pela investigação incluem:

  • Aumento abrupto do volume de treino: o erro mais comum. O osso e os tecidos não têm tempo de se adaptar
  • Superficie dura ou mudança de superfície: cimento ou alcatrão são mais agressivos do que terra batida
  • Calçado inadequado ou gasto: perde amortecimento e suporte
  • Pé pronado (vira muito para dentro): aumenta as forças torsionais sobre a tíbia
  • Fraqueza do core e glúteos: altera a biomecânica e sobrecarrega a perna
  • Pouca flexibilidade das panturrilhas: aumenta o stress sobre a tíbia

Tratamento: o que funciona

A boa notícia: a SSTM resolve-se bem com tratamento conservador.

Fase aguda (primeiras 2 semanas):

  • Reduz o volume de corrida 50-70% (ou interrompe completamente se a dor for intensa)
  • Gelo após os treinos: 15-20 minutos, 2-3 vezes por dia
  • Anti-inflamatórios se recomendado pelo médico
  • Mantém forma física com natação ou bicicleta (baixo impacto)

Fase de recuperação (semanas 2-6):

  • Reintroduz a corrida progressivamente em superfície mole
  • Fortalece o tibial anterior: extensões do tornozelo com banda elástica
  • Fortalece o core e os glúteos: pontes, agachamentos unilaterais
  • Alonga as panturrilhas diariamente

Quando retornar: podes retomar volume normal quando estiveres 2 semanas sem dor durante ou após a corrida, e o toque na tíbia não provocar dor.

Prevenção: a regra dos 10%

O princípio mais validado pela evidência: não aumentes o volume semanal mais de 10% por semana. Se corres 40 km/semana, na semana seguinte não deves exceder 44 km.

Outros elementos preventivos:

  • Inclui semanas de descarga (volume reduzido) a cada 3-4 semanas
  • Corre em superfícies variadas — não apenas cimento
  • Substitui o calçado ao km 700-900 (perde amortecimento)
  • Exercícios regulares de fortalecimento dos membros inferiores

Referências Científicas

Moen, M. H., et al. (2012). Medial tibial stress syndrome: A critical review. Sports Medicine, 39(7), 523–546. https://doi.org/10.2165/00007256-200939070-00002

Winters, M., et al. (2013). The medial tibial stress syndrome: A systematic review. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 23(6), 678–695. https://doi.org/10.1111/j.1600-0838.2012.01418.x

Nielsen, R. O., et al. (2014). Training load and incidence of injury among recreational runners. Journal of Athletic Training, 49(6), 774–780. https://doi.org/10.4085/1062-6050-49.3.20

Hamstra-Wright, K. L., et al. (2015). Risk factors for medial tibial stress syndrome in physically active individuals: A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 49(6), 362–369. https://doi.org/10.1136/bjsports-2014-093462